> > > Presidente do CBT fala sobre a importância das construções de túneis no Brasil

Presidente do CBT fala sobre a importância das construções de túneis no Brasil

Em entrevista exclusiva para a TV da Obra, Tarcísio Barreto Celestino, presidente do Comitê Brasileiro de Túneis, fala como obras subterrâneas podem solucionar os problemas viários no país


Redação PE

Tarcísio Barreto Celestino - Presidente do CBT: Eu sou Tarcísio Barreto Celestino, presidente do CBT - Comitê Brasileiro de Túneis. Infelizmente eu diria que há um descompasso muito grande entre o que é a economia brasileira e o que é a nossa infraestrutura. Outro dia eu li em um jornal um ranking mundial a respeito de infraestrutura de transporte. Nós somos oitenta e tantos; isso mantém por enquanto, mas a longo prazo isso é insustentável. Então o nível de atividade de construção subterrânea no Brasil é, infelizmente, muito pequeno e muito baixo, comparado ao tamanho do país, ao tamanho da economia ou qualquer outro índice que se pegue.

Marina Bighetti – TV da Obra: E como tem sido a influência do país no mundo quando falamos de engenharia?

Tarcísio Barreto Celestino - Presidente do CBT: Excelente pergunta! Eu me sinto honrado sendo engenheiro em dizer que a engenharia brasileira é de primeiríssima linha. É de primeiríssima linha, nós não ficamos, posso dizer, a dever nada para os outros países no que se refere à construção de obras subterrâneas, seja em projetos, seja em construção. Hoje nós sabemos de empresas construtoras principalmente operando globalmente e competitivamente no mercado internacional com seu suporte de engenharia brasileira. Então, não é uma deficiência tecnológica. Enquanto nós temos engenharia de ótima qualidade para construir obras subterrâneas, por outro lado ainda existe um resquício que eu ainda não sei exatamente de onde veio. Que começou na primeira metade do século 20, de que estrada se faz sem túnel. Isso, nós pagamos o preço, digo nós, a sociedade, não só nós profissionais de projeto e construção de túneis, mas nós sociedade pagamos um preço alto disso, dos tantos escorregamentos de estradas, no custo operacional muito elevado. Outro dia me chamaram para fazer uma palestra sobre túneis para rodovias, alguma coisa desse tipo, e eu resolvi pegar um exemplo concreto, de analisar um exemplo concreto de um túnel que nós não temos, de um dos tantos que nós deveríamos ter e não temos: a ligação entre as praias de Maresias e Boiçucanga, no litoral norte de São Paulo. As praias estão distantes entre si em 4 km. Em vez de um túnel de 4 km ao nível do mar, ou seja, sempre plano, o projeto que se fez e que se opera até hoje é uma rodovia que sobe a serra de Boiçucanga até a elevação 350, o trajeto total, eu não me lembro, mas beira 10 e 20 km, não lembro exatamente, e eu fiz um exercício, pus um engenheiro júnior aqui pra calcular: “escuta, me calcula o custo operacional de um veículo subindo a serra em 20 km de trajeto, sobe até a cota 350, depois desce até a elevação do nível do mar, quanto custa isso versus quanto custaria para um veículo trafegar 4 km ao nível do mar”. O número é estarrecedor. A diferença de custo operacional multiplicado pelo número de veículos que passam lá, cerca de 20 mil veículos por dia, acho que esse é o numero, ao logo dos anos que essa rodovia operou há uma diferença de custo operacional de 1,5 bilhões de dólares. Aquele túnel teria custado cento e alguns milhões, nem isso, 100 milhões, e nós população, usuários da estrada, gastamos 1,5 bilhão de custo operacional, ou seja, nessas horas que nós vemos porque que a nossa infraestrutura, porque que o gráfico da ITA que eu falei lá no inicio é tão pequenininho.

Marina Bighetti – TV da Obra: O CBT já propôs que o Minhocão fosse transformado em uma via subterrânea. Agora com a ideia de ele ser desativado, o senhor vê espaço para reapresentar essa proposta?

Tarcísio Barreto Celestino - Presidente do CBT: O Minhocão é um desastre urbanístico, ou seja, conseguindo outra alternativa que tem que ser superada para o trafego do Minhocão, a decisão mais correta do ponto de vista urbanístico é demoli-lo a bem do benefício de todos os estabelecimentos ao longo do seu trajeto. O principal desafio é, eu diria, o convencimento dos tomadores de decisão da sua importância, dificuldade tecnológica não existe, custo, seguramente é um custo palatável para a maior cidade, para a maior metrópole do continente. O que precisa na realidade é uma vontade politica, ou seja, que as pessoas entendam e que os tomadores de decisão entendam a grande necessidade, o grande impacto que isso tem do ponto de vista da economia da cidade, do ponto de vista do bem estar da população, do ponto de vista da vida das pessoas. Muitos paulistanos não estarão vivos entre nós enquanto o tráfego não melhorar com a obra do tipo de uma de substituição do Minhocão por uma obra subterrânea. O mais emblemático é o famoso Big Dig, da cidade de Boston, que substituiu o seu Minhocão por um túnel chamado Big Dig, a um custo sim, a um custo de 14 bilhões de dólares. Mas parte deste custo foi pago pelo mercado imobiliário, pelo benefício que a obra causou liberando áreas que antes eram completamente degradadas, como a área no entorno do Minhocão completamente degrada por áreas que viraram áreas nobres. Então, isso gera receita que pode ser utilizada parcialmente para o pagamento da própria obra. Fora da escala urbana há muitos benefícios, alguns dos quais aqui no Brasil nós não conhecemos ainda, por exemplo, é inconcebível que o Brasil não estoque uma gota seja de petróleo, seja de derivados de petróleo em subterrâneo. Tudo é estocado a céu aberto, naqueles tanques enormes que nós vemos em São Sebastião, Cubatão, etc. Isso é inadmissível em muitos países. No ponto de vista estratégico, de segurança, que nunca houve e, espero que nunca haja uma guerra aqui, mas se houver nós somos vulnerabilíssimos, além disso, é mais caro ali ao lado da serra do mar, onde a escavação subterrânea em rocha de boa qualidade é muito barato, é mais barato estocar petróleo e derivado de petróleo em subterrâneo do que estocar a céu aberto. Eu diria que um dos papéis do CBT é se dirigir aos tomadores de decisão e umas das coisas que o CBT procura é exatamente chegar a esses tomadores de decisão e aproximar esses dois extremos do processo: os tomadores de decisão que são os grandes, entre aspas, compradores, entre aspas, dos serviços de obras subterrâneas e aqueles que oferecem os serviços de obras subterrâneas e até num ambiente informal. Nós planejamos fazer alguma coisa como um almoço anual entre essas duas pontas do mercado pra tentar aproximá-las e fechar esse gap que no Brasil infelizmente é muito alto. Se nós conseguirmos reduzir o gap pela metade, já terá sido uma grande tarefa.

Gostou deste conteúdo? Cadastre-se para receber gratuitamente nossos boletins.

Serviços relacionadosServiços relacionados

Guias especializados

Canais Temáticos

[+] canais

Complete seu cadastro

Receba gratuitamente os Boletins e
Informativos do Portal dos Equipamentos.